o sol
(a ser adjetivado:
im-pla-cá-vel)
descorou a capa
de um volume de baudelaire
as flores do mal
(descubro)
não resistem à lenta
violência do sol
(sol de boca-de-sertão
que estorrica o solo?)
também
quem mandou
colocar a estante
nesta posição:
o que estaria baudelaire
(em efígie gráfica)
fazendo no sertão?
se as flores do mal
não suportam o sol
(respondez baudelaire)
resistiriam aos punhais
do óxido e do sal?
Carlos Ávila
IN: DANIEL, Claudio e BARBOSA, Frederico. Na virada do século. Poesia de invenção no Brasil. São Paulo: Landy, 2002, p. 91.
domingo, 30 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
domingo, 23 de maio de 2010
FALAR
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sos vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
Ferreira Gullar
In: GULLAR, Ferreira. Poesia completa, teatro e prosa.Organização de Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 475.
de um silêncio que sou eu, sos vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
Ferreira Gullar
In: GULLAR, Ferreira. Poesia completa, teatro e prosa.Organização de Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 475.
terça-feira, 18 de maio de 2010
leminskiana
la vie en close
c'est une autre chose
c'est lui
c'est moi
c'est ça
c'est la vie des choses
qui n'ont pas
un autre choix
paulo leminski
IN: LEMINSKI, Paulo. La vie en close. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
c'est une autre chose
c'est lui
c'est moi
c'est ça
c'est la vie des choses
qui n'ont pas
un autre choix
paulo leminski
IN: LEMINSKI, Paulo. La vie en close. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
domingo, 16 de maio de 2010
Palavra e imagem
IX A PARÁBOLA DOS CEGOS
Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum
na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando
diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco
onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente
é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos
e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja
as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho
à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre
William Carlos Williams
Tradução de José Paulo Paes
IX THE PARABLE OF THE BLIND
This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red
in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward
across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog
where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man
is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few
pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire
the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous
to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster
William Carlos Williams
IN: WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 252-253.
Esta horrível mas soberba tela
a parábola dos cegos
sem vermelho algum
na composição mostra um bando
de mendigos um a
guiar o outro atravessando
diagonalmente o quadro
desde um lado
para tropeçar enfim num charco
onde a pintura
e a composição terminam atrás
do qual nenhum homem vidente
é representado os rostos
sem barbear dos in-
digentes com seus poucos
e miseráveis pertences vê-se
uma bacia de lavar numa casinha
campônia e a ponta de uma torre de igreja
as faces estão erguidas
como que para a luz
não há nenhum detalhe estranho
à composição cada um
segue os outros bordão
na mão triunfante até o desastre
William Carlos Williams
Tradução de José Paulo Paes
IX THE PARABLE OF THE BLIND
This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red
in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward
across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog
where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man
is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few
pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire
the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous
to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster
William Carlos Williams
IN: WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 252-253.
sábado, 15 de maio de 2010
Um moderno
A DURAÇÃO
Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho
e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo
arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando
veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada
no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi
com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.
William Carlos Williams
Tradução: José Paulo Paes
THE TERM
A rumpled sheet
of brown paper
about the length
and apparent bulk
of a man was
rolling with the
wind slowly over
and over in
the street as
a car drove down
upon it and
crushed it to
the ground. Unlike
a man it rose
again rolling
with the wind over
and over to be as
it was before.
William Carlos Williams
IN: WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes.São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 134-135.
Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho
e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo
arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando
veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada
no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi
com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.
William Carlos Williams
Tradução: José Paulo Paes
THE TERM
A rumpled sheet
of brown paper
about the length
and apparent bulk
of a man was
rolling with the
wind slowly over
and over in
the street as
a car drove down
upon it and
crushed it to
the ground. Unlike
a man it rose
again rolling
with the wind over
and over to be as
it was before.
William Carlos Williams
IN: WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes.São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 134-135.
Canção do Exílio

Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.
Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.
Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.
Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.
Fechei a porta da rua
a chave joguei ao mar.
Andei tanto nesta rua
que já não sei mais voltar.
José Paulo Paes
PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p.19.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Blackitude
13 de Maio
Caetano Veloso
Dia 13 de maio em Santo Amaro
Na Praça do Mercado
Os pretos celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão
Da escravidão
O fim da escravidão
Tanta pindoba!
Lembro do aluá
Lembro da maniçoba
Foguetes no ar
Pra saudar Isabel
Ô Isabé
Pra saudar Isabé
© Uns Produções Artísticas Ltda
70504755 BRMCA0000574
Caetano Veloso
Dia 13 de maio em Santo Amaro
Na Praça do Mercado
Os pretos celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão
Da escravidão
O fim da escravidão
Tanta pindoba!
Lembro do aluá
Lembro da maniçoba
Foguetes no ar
Pra saudar Isabel
Ô Isabé
Pra saudar Isabé
© Uns Produções Artísticas Ltda
70504755 BRMCA0000574
retrato do artista quando jovem
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Sem cais
Caetano Veloso
Pedro Sá
catei colo e o mar parou
fui deitando pra perguntar
nome, bairro, amigo, amor
de onde vem parar o mar
seu sorriso bateu aqui
inda posso me apaixonar
quero tanto quero tanto quero tanto você
mar aberto, mar adentro, mar imenso, aberto, sem cais
tou com medo tou com medo tou com medo tou com medo de ver
que inda posso que inda posso que inda posso ir bem mais
Barra, Gávea e Arpoador
deuses brancos de luz do mar
deuses negros, um esplendor
quem é essa e o que será
quem me dera eu poder me dar
todo a essa que eu nunca vi
© Natasha Edições
Caetano Veloso
Pedro Sá
catei colo e o mar parou
fui deitando pra perguntar
nome, bairro, amigo, amor
de onde vem parar o mar
seu sorriso bateu aqui
inda posso me apaixonar
quero tanto quero tanto quero tanto você
mar aberto, mar adentro, mar imenso, aberto, sem cais
tou com medo tou com medo tou com medo tou com medo de ver
que inda posso que inda posso que inda posso ir bem mais
Barra, Gávea e Arpoador
deuses brancos de luz do mar
deuses negros, um esplendor
quem é essa e o que será
quem me dera eu poder me dar
todo a essa que eu nunca vi
© Natasha Edições
domingo, 9 de maio de 2010
O CANTO DOS CRONÓPIOS
Quando os cronópios cantam suas canções preferidas, ficam de tal maneira entusiasmados que frequentemente se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem da janela e perdem o que tinham nos bolsos e até a conta dos dias.
Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas acorrem a ouvi-lo embora não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram um tanto escandalizados. No meio da roda o cronópio suspende seus bracinhos como se segurasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça do Batista, de forma que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que ali estão boquiabertos e perguntando-se se o senhor padre, se as conveniências. Mas como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas) acabam aplaudindo o cronópio, que se recupera sobressaltado, olha em redor e começa também a aplaudir, coitadinho.
Julio Cortázar
In: CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e famas. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p. 130-131.
Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas acorrem a ouvi-lo embora não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram um tanto escandalizados. No meio da roda o cronópio suspende seus bracinhos como se segurasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça do Batista, de forma que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que ali estão boquiabertos e perguntando-se se o senhor padre, se as conveniências. Mas como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas) acabam aplaudindo o cronópio, que se recupera sobressaltado, olha em redor e começa também a aplaudir, coitadinho.
Julio Cortázar
In: CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e famas. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p. 130-131.
Trecho de diário
Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá.
Numa determinada pedra em certa rua de Calcutá,
Solta, sozinha. Quem repara nela?
Só eu, que nunca fui lá,
Só eu, deste lado do mundo, te mando agora este pensamento...
Minha pedra de Calcutá!
Mário Quintana
(Apontamentos de história sobrenatural)
QUINTANA, Mário. Primavera cruza o rio. Organização de Maria da Glória Bordini. Rio de Janeiro: Globo, 1985, p. 55.
Numa determinada pedra em certa rua de Calcutá,
Solta, sozinha. Quem repara nela?
Só eu, que nunca fui lá,
Só eu, deste lado do mundo, te mando agora este pensamento...
Minha pedra de Calcutá!
Mário Quintana
(Apontamentos de história sobrenatural)
QUINTANA, Mário. Primavera cruza o rio. Organização de Maria da Glória Bordini. Rio de Janeiro: Globo, 1985, p. 55.
sábado, 8 de maio de 2010
Blake
CANÇÃO DEMENTE
A noite é muito fria,
Selvagem uiva o vento;
Vem, Sono, e me alivia
De tanto sofrimento:
Mas eis que espreita o sol nascente
Na escarpa do oriente,
E eis que a passarada da aurora
À terra ignora.
Vê! Para a abóbada
Do céu pavimentado,
Repleto de tristeza
O meu canto é levado:
Umedece os olhos do dia,
Os ouvidos da noite invade,
Enlouquece a ventania...
E brinca a tempestade.
Qual diabo por nuvem coberto,
Com angústia ululante,
Sigo a noite de perto
E irei com ela adiante;
Volto as costas à aurora,
De onde o consolo aflora,
Que a luz me agarra a mente
Com dor fremente.
William Blake
MAD SONG
The wild winds weep,
And the night is a-cold;
come hither, Sleep,
And my griefs infold:
But lo! the morning peeps
Over the eastern steeps,
And the rustling birds of dawn
The earth do scorn.
Lo! to the vault
Of pavèd heaven,
With sorrow fraught
My notes are driven:
They strike the ear of night,
Make weep the eyes of day;
They make mad the roaring winds,
And the tempests play.
Like a fiend in a cloud
With howling woe,
After night I do crowd,
And with night will go;
I turn my back to the east,
From whence comforts have increas'd;
For light doth seize my brain
With frantic pain.
Tradução: Paulo Vizioli.
In: BLAKE, William. Poesia e prosa selecionadas. Edição bilíngue. São Paulo: J. C. Ismael,1984, p. 12-13.
A noite é muito fria,
Selvagem uiva o vento;
Vem, Sono, e me alivia
De tanto sofrimento:
Mas eis que espreita o sol nascente
Na escarpa do oriente,
E eis que a passarada da aurora
À terra ignora.
Vê! Para a abóbada
Do céu pavimentado,
Repleto de tristeza
O meu canto é levado:
Umedece os olhos do dia,
Os ouvidos da noite invade,
Enlouquece a ventania...
E brinca a tempestade.
Qual diabo por nuvem coberto,
Com angústia ululante,
Sigo a noite de perto
E irei com ela adiante;
Volto as costas à aurora,
De onde o consolo aflora,
Que a luz me agarra a mente
Com dor fremente.
William Blake
MAD SONG
The wild winds weep,
And the night is a-cold;
come hither, Sleep,
And my griefs infold:
But lo! the morning peeps
Over the eastern steeps,
And the rustling birds of dawn
The earth do scorn.
Lo! to the vault
Of pavèd heaven,
With sorrow fraught
My notes are driven:
They strike the ear of night,
Make weep the eyes of day;
They make mad the roaring winds,
And the tempests play.
Like a fiend in a cloud
With howling woe,
After night I do crowd,
And with night will go;
I turn my back to the east,
From whence comforts have increas'd;
For light doth seize my brain
With frantic pain.
Tradução: Paulo Vizioli.
In: BLAKE, William. Poesia e prosa selecionadas. Edição bilíngue. São Paulo: J. C. Ismael,1984, p. 12-13.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Nada por acaso
O pedantismo ingênuo
dos joguinhos de palavras
e dos trocadilhos sem graça
nada significam
no branco da página.
Oh! Cobiçado branco da página,
para onde se volta todo o desejo do poeta.
Nesse afã de brincar,
quem sabe ele busca
algum niilismo da escrita
ou simplesmente
tal qual um menino buchudo
se diverte
dando banana a Mallarmé.
Palavras por elas próprias
e o fait-divers da poesia
se dissemina farto.
João Batista de Morais Neto
O pedantismo ingênuo
dos joguinhos de palavras
e dos trocadilhos sem graça
nada significam
no branco da página.
Oh! Cobiçado branco da página,
para onde se volta todo o desejo do poeta.
Nesse afã de brincar,
quem sabe ele busca
algum niilismo da escrita
ou simplesmente
tal qual um menino buchudo
se diverte
dando banana a Mallarmé.
Palavras por elas próprias
e o fait-divers da poesia
se dissemina farto.
João Batista de Morais Neto
sábado, 1 de maio de 2010
Este amor
Caetano Veloso
Se alguém pudesse ser um siboney
Boiando à flor do sol
Se alguém, seu arquipélago, seu rei
Seu golfo e seu farol
Captasse a cor das cores da razão do sal da vida
Talvez chegasse a ler o que este amor tem como lei
Se alguém, judeu, iorubá, nissei, bundo
Rei na diáspora
Abrisse as suas asas sobre o mundo
Sem ter nem precisar
E o mundo abrisse já, por sua vez, asas e pétalas
Não é bem, talvez, em flor
Que se desvela o que este amor
(Tua boca brilhando, boca de mulher
Nem mel, nem mentira
O que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer
O que de mim ninguém tira
Carne da palavra, carne do silêncio
Minha paz e minha ira
Boca, tua boca, boca, tua boca, cala minha boca)
Se alguém, cantasse mais do que ninguém
Do que o silêncio e o grito
Mais íntimo e remoto, perto além
Mais feio e mais bonito
Se alguém pudesse erguer o seu Gilgal em Bethânia
Que anjo exterminador tem como guia o deste amor?
Se alguém, nalgum bolero, nalgum som
Perdesse a máscara
E achasse verdadeiro e muito bom
O que não passará
Dindinha lua brilharia mais no céu da ilha
E a luz da maravilha
E a luz do amor
Sobre este amor
© Editora Gapa
Caetano Veloso
Se alguém pudesse ser um siboney
Boiando à flor do sol
Se alguém, seu arquipélago, seu rei
Seu golfo e seu farol
Captasse a cor das cores da razão do sal da vida
Talvez chegasse a ler o que este amor tem como lei
Se alguém, judeu, iorubá, nissei, bundo
Rei na diáspora
Abrisse as suas asas sobre o mundo
Sem ter nem precisar
E o mundo abrisse já, por sua vez, asas e pétalas
Não é bem, talvez, em flor
Que se desvela o que este amor
(Tua boca brilhando, boca de mulher
Nem mel, nem mentira
O que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer
O que de mim ninguém tira
Carne da palavra, carne do silêncio
Minha paz e minha ira
Boca, tua boca, boca, tua boca, cala minha boca)
Se alguém, cantasse mais do que ninguém
Do que o silêncio e o grito
Mais íntimo e remoto, perto além
Mais feio e mais bonito
Se alguém pudesse erguer o seu Gilgal em Bethânia
Que anjo exterminador tem como guia o deste amor?
Se alguém, nalgum bolero, nalgum som
Perdesse a máscara
E achasse verdadeiro e muito bom
O que não passará
Dindinha lua brilharia mais no céu da ilha
E a luz da maravilha
E a luz do amor
Sobre este amor
© Editora Gapa
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poesia
Logos versus logo
Gilberto Gil
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Celebra-se, poeta que se é
Durante um tempo a idéia radical
De tudo importar, se para o supremo ser
De nada importar, se para o homem mortal
Abarrotam-se os cofres do saber
Um saber que se torne capital
Um capital que faça o futuro render
Os juros da condição de imortal
(Mas a morte é certa!)
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E assim por muito tempo busca-se
O cuidadoso esculpir da estátua
Que possa atravessar os séculos intacta
Tornar perpétua a lembrança do poeta
Mas chega-se ao cruzamento da vida
O ser pra um lado, pra outro lado o mundo
Sujeita-se o poeta à servidão da lida
Quando a voz da razão fala mais fundo
E essa voz comanda:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E o bom poeta, sólido afinal
Apossa-se da foice ou do martelo
Para investir do aqui e agora o capital
No produzir real de um mundo justo e belo
Celebra assim, mortal que já se crê
O afazer como bem ritual
Cessar da obsessão pelo supremo ser
Nascer do prazer pelo social
E o poeta grita:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Eis o papel da grande cidade
Eis a função da modernidade
Gilberto Gil
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Celebra-se, poeta que se é
Durante um tempo a idéia radical
De tudo importar, se para o supremo ser
De nada importar, se para o homem mortal
Abarrotam-se os cofres do saber
Um saber que se torne capital
Um capital que faça o futuro render
Os juros da condição de imortal
(Mas a morte é certa!)
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E assim por muito tempo busca-se
O cuidadoso esculpir da estátua
Que possa atravessar os séculos intacta
Tornar perpétua a lembrança do poeta
Mas chega-se ao cruzamento da vida
O ser pra um lado, pra outro lado o mundo
Sujeita-se o poeta à servidão da lida
Quando a voz da razão fala mais fundo
E essa voz comanda:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E o bom poeta, sólido afinal
Apossa-se da foice ou do martelo
Para investir do aqui e agora o capital
No produzir real de um mundo justo e belo
Celebra assim, mortal que já se crê
O afazer como bem ritual
Cessar da obsessão pelo supremo ser
Nascer do prazer pelo social
E o poeta grita:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Eis o papel da grande cidade
Eis a função da modernidade
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