domingo, 25 de outubro de 2009

Soneto já antigo

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

Àlvaro de Campos/Fernando Pessoa

Fernando Pessoa. Obra poética. Organização, Introdução e Notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

A poesia da Lapa


Lapa
Caetano Veloso


samba-Canal 100 no meio de 60
e nos 70 era o Largo da Ordem
tudo vinha desaguar na Lapa
Lapa, minha inspiração,
Lapa, Guinga e Pedro Sá
lição

quem projetaria essa elegância solta
essa alegria, essa moça-vanguarda
esse rapaz gostoso que é a Lapa
Lapa, Circo Voador
Lapa, choro e rock’n’roll
perdão

cool e popular
cool e popular
cool e popular
a Lapa
quem ia imaginar
quem ia imaginar
quem ia imaginar
só eu
eu sozinho, só e solitário
sob a chuva da Bahia

pobre e requintado e rico e requintado
e refinado e ainda há conflito
Pelourinho vezes Rio é Lapa
Lapa
veio a salvação
Lapa
falta o mundo ver
assim
Água de Kassin lava a Nova Capela
eu amo a PUC e a gíria dos bandidos
Fundição Progresso: eis a Lapa
Lapa
Lula e FH
Lapa
amo nosso tempo
em ti
Lapa!…

© Natasha Edições



Ficha técnica da faixa

banda: BandaCê

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Soneto antigo

Esse estoque de amor que acumulei
Ninguém veio comprar a preço justo.
Preparei meu castelo para um rei
Que mal me olhou, passando, e a quanto custo.

Meu tesouro amoroso há muito as traças
Comeram, secundadas por ladrões.
A luz abandonou as ondas lassas
De refletir um sol que só se põe

Sozinho. Agora vou por meus infernos
Sem fantasma buscar entre fantasmas.
E marcho contra o vento, sobre eternos

Desertos sem retorno, onde olharás
Mas sem o ver, estrela cega, o rastro
Que até aqui deixei, seguindo um astro.

Mário Faustino.

Poesia completa, poesia traduzida. São Paulo: Max Limonad, 1985.

domingo, 18 de outubro de 2009

haikai

Mulher sob a lua cheia
Toco a estrela do mar
Nua no mar

Vítor Albano

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

o que foi feito de vera

O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida, o que foi feito do amor
Quisera encontrar aquele verso menino
Que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade, falo assim por saber
Se muito vale o já feito, mais vale o que será
Mas vale o que será

E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza, falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer
Nós iremos crescer, outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz
Alertem todos alarmas que o homem que eu era voltou
A tribo toda reunida, ração dividida ao sol
E nossa Vera Cruz, quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par
Quando o cansaço era rio e rio qualquer dava pé
E a cabeça rolava num gira-girar de amor
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz
Hoje essa vida só cabe na palma da minha paixão
Devera nunca se acabe, abelha fazendo o seu mel
No pranto que criei, nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós

Fernando Brandt e Milton Nascimento
Baixe agora o Ringtone desta música!
Clique aqui!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O homem velho
Caetano Veloso



O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fulgaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

© Editora Gapa