Nada por acaso
O pedantismo ingênuo
dos joguinhos de palavras
e dos trocadilhos sem graça
nada significam
no branco da página.
Oh! Cobiçado branco da página,
para onde se volta todo o desejo do poeta.
Nesse afã de brincar,
quem sabe ele busca
algum niilismo da escrita
ou simplesmente
tal qual um menino buchudo
se diverte
dando banana a Mallarmé.
Palavras por elas próprias
e o fait-divers da poesia
se dissemina farto.
João Batista de Morais Neto
quarta-feira, 5 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
Este amor
Caetano Veloso
Se alguém pudesse ser um siboney
Boiando à flor do sol
Se alguém, seu arquipélago, seu rei
Seu golfo e seu farol
Captasse a cor das cores da razão do sal da vida
Talvez chegasse a ler o que este amor tem como lei
Se alguém, judeu, iorubá, nissei, bundo
Rei na diáspora
Abrisse as suas asas sobre o mundo
Sem ter nem precisar
E o mundo abrisse já, por sua vez, asas e pétalas
Não é bem, talvez, em flor
Que se desvela o que este amor
(Tua boca brilhando, boca de mulher
Nem mel, nem mentira
O que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer
O que de mim ninguém tira
Carne da palavra, carne do silêncio
Minha paz e minha ira
Boca, tua boca, boca, tua boca, cala minha boca)
Se alguém, cantasse mais do que ninguém
Do que o silêncio e o grito
Mais íntimo e remoto, perto além
Mais feio e mais bonito
Se alguém pudesse erguer o seu Gilgal em Bethânia
Que anjo exterminador tem como guia o deste amor?
Se alguém, nalgum bolero, nalgum som
Perdesse a máscara
E achasse verdadeiro e muito bom
O que não passará
Dindinha lua brilharia mais no céu da ilha
E a luz da maravilha
E a luz do amor
Sobre este amor
© Editora Gapa
Caetano Veloso
Se alguém pudesse ser um siboney
Boiando à flor do sol
Se alguém, seu arquipélago, seu rei
Seu golfo e seu farol
Captasse a cor das cores da razão do sal da vida
Talvez chegasse a ler o que este amor tem como lei
Se alguém, judeu, iorubá, nissei, bundo
Rei na diáspora
Abrisse as suas asas sobre o mundo
Sem ter nem precisar
E o mundo abrisse já, por sua vez, asas e pétalas
Não é bem, talvez, em flor
Que se desvela o que este amor
(Tua boca brilhando, boca de mulher
Nem mel, nem mentira
O que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer
O que de mim ninguém tira
Carne da palavra, carne do silêncio
Minha paz e minha ira
Boca, tua boca, boca, tua boca, cala minha boca)
Se alguém, cantasse mais do que ninguém
Do que o silêncio e o grito
Mais íntimo e remoto, perto além
Mais feio e mais bonito
Se alguém pudesse erguer o seu Gilgal em Bethânia
Que anjo exterminador tem como guia o deste amor?
Se alguém, nalgum bolero, nalgum som
Perdesse a máscara
E achasse verdadeiro e muito bom
O que não passará
Dindinha lua brilharia mais no céu da ilha
E a luz da maravilha
E a luz do amor
Sobre este amor
© Editora Gapa
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poesia
Logos versus logo
Gilberto Gil
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Celebra-se, poeta que se é
Durante um tempo a idéia radical
De tudo importar, se para o supremo ser
De nada importar, se para o homem mortal
Abarrotam-se os cofres do saber
Um saber que se torne capital
Um capital que faça o futuro render
Os juros da condição de imortal
(Mas a morte é certa!)
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E assim por muito tempo busca-se
O cuidadoso esculpir da estátua
Que possa atravessar os séculos intacta
Tornar perpétua a lembrança do poeta
Mas chega-se ao cruzamento da vida
O ser pra um lado, pra outro lado o mundo
Sujeita-se o poeta à servidão da lida
Quando a voz da razão fala mais fundo
E essa voz comanda:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E o bom poeta, sólido afinal
Apossa-se da foice ou do martelo
Para investir do aqui e agora o capital
No produzir real de um mundo justo e belo
Celebra assim, mortal que já se crê
O afazer como bem ritual
Cessar da obsessão pelo supremo ser
Nascer do prazer pelo social
E o poeta grita:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Eis o papel da grande cidade
Eis a função da modernidade
Gilberto Gil
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Celebra-se, poeta que se é
Durante um tempo a idéia radical
De tudo importar, se para o supremo ser
De nada importar, se para o homem mortal
Abarrotam-se os cofres do saber
Um saber que se torne capital
Um capital que faça o futuro render
Os juros da condição de imortal
(Mas a morte é certa!)
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E assim por muito tempo busca-se
O cuidadoso esculpir da estátua
Que possa atravessar os séculos intacta
Tornar perpétua a lembrança do poeta
Mas chega-se ao cruzamento da vida
O ser pra um lado, pra outro lado o mundo
Sujeita-se o poeta à servidão da lida
Quando a voz da razão fala mais fundo
E essa voz comanda:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
E o bom poeta, sólido afinal
Apossa-se da foice ou do martelo
Para investir do aqui e agora o capital
No produzir real de um mundo justo e belo
Celebra assim, mortal que já se crê
O afazer como bem ritual
Cessar da obsessão pelo supremo ser
Nascer do prazer pelo social
E o poeta grita:
Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade
Eis o papel da grande cidade
Eis a função da modernidade
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leltra de música,
poesia
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Raça
O padre Caldas
orangotango da Corte
entre a Arcádia e a rua
com a sua Viola de Lereno
faz irromper sua fúria branda
Cruz e Sousa
fascina-se pelas imagens brancas
e pela assepsia das formas
mas em seu emparedamento
afirma sua negra dor.
O mulato Lima
vivendo na fronteira
em que álcool, loucura e miséria
formaram um molotov de adversidades
detonou o mundo medíocre de sua época
sendo “pobre, mulato e livre”.
Gil
de refazenda e realce
da refavela ao poder
afirma seu brilho
de canto e discurso
a cintilação de palavra e gesto
em cores vivas.
Machado
Ah! O bruxo!
Esse sublimou.
João Batista de Morais Neto
O padre Caldas
orangotango da Corte
entre a Arcádia e a rua
com a sua Viola de Lereno
faz irromper sua fúria branda
Cruz e Sousa
fascina-se pelas imagens brancas
e pela assepsia das formas
mas em seu emparedamento
afirma sua negra dor.
O mulato Lima
vivendo na fronteira
em que álcool, loucura e miséria
formaram um molotov de adversidades
detonou o mundo medíocre de sua época
sendo “pobre, mulato e livre”.
Gil
de refazenda e realce
da refavela ao poder
afirma seu brilho
de canto e discurso
a cintilação de palavra e gesto
em cores vivas.
Machado
Ah! O bruxo!
Esse sublimou.
João Batista de Morais Neto
quarta-feira, 28 de abril de 2010
DOS ONZE E DOIS POEMAS
Fina teia de aranha, tecem o verbo no céu
os ramos da Pensilvânia batidos pelo vento;
em seu desenho eu leio o ignoto.
Insular que matou a sede em oliveiras de luar
revolucionário, imigrante, sou de ofício
intérprete de sonhos. Examino os Magos van
van Eyck e Bosch e Breton e
Duchamp. Saúdo ateus budistas
do Colorado, anarquistas heréticos.
Festejo o solstício e aniversário
de qualquer Comuna. Cultuo, à sombra do monte Atos
e das pirâmides, Vênus Afrodite.
Perco-me na multidão, reencontro-me a mim mesmo
nas artérias de Babilônia
na palma do futuro.
Kálas
In: PAES, José Paulo (Org). Poesia Moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986, p.189.
os ramos da Pensilvânia batidos pelo vento;
em seu desenho eu leio o ignoto.
Insular que matou a sede em oliveiras de luar
revolucionário, imigrante, sou de ofício
intérprete de sonhos. Examino os Magos van
van Eyck e Bosch e Breton e
Duchamp. Saúdo ateus budistas
do Colorado, anarquistas heréticos.
Festejo o solstício e aniversário
de qualquer Comuna. Cultuo, à sombra do monte Atos
e das pirâmides, Vênus Afrodite.
Perco-me na multidão, reencontro-me a mim mesmo
nas artérias de Babilônia
na palma do futuro.
Kálas
In: PAES, José Paulo (Org). Poesia Moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986, p.189.
terça-feira, 27 de abril de 2010
poema
UM CERTO SPLEEN TARDIO
Não dá pra disfarçar
A tristeza
A blusa amarela
A calça azul-marinho
O sapato novo luzindo
O passo de dança
Como um bailado de rua
Enquanto ainda há vento na cidade
Mas os edifícios crescem gigantes
Na construção da mimese das grandes metrópoles
Aumentando o calor da província
Sufocando os pulmões que eram tão puros
O spleen está na cara
A alma se vê por fora
Parece o absurdo da cidade
Tão bruta
Atropelando-se na confusão dos dias
Um flanêur periférico é como
Sempre um flanêur
Um passante deslocado na paisagem
João Batista de Morais Neto
Não dá pra disfarçar
A tristeza
A blusa amarela
A calça azul-marinho
O sapato novo luzindo
O passo de dança
Como um bailado de rua
Enquanto ainda há vento na cidade
Mas os edifícios crescem gigantes
Na construção da mimese das grandes metrópoles
Aumentando o calor da província
Sufocando os pulmões que eram tão puros
O spleen está na cara
A alma se vê por fora
Parece o absurdo da cidade
Tão bruta
Atropelando-se na confusão dos dias
Um flanêur periférico é como
Sempre um flanêur
Um passante deslocado na paisagem
João Batista de Morais Neto
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