faz três semanas
espero
depois da novela
sem falta
um telefonema
de algum ponto
perdido
do país
ana cristina cesar
CESAR, Ana Cristina. Novas seletas. Organização, apresentação e notas de Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p.53.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
domingo, 18 de abril de 2010
Mascarado avanço
Ela desinfla o mal-estar
na civilização.
Ela prescinde da felicidade
dos bem-postos na vida.
Quanto mais na lida diária
o Tedium Vitae preside
tanto mais
eu e ela nos fundimos extáticos,
crentes da seita dos dervixes girantes.
Eu, com ansiosa solicitude,
agarro qualquer bóia
- destroço seja jóia -
e comando o lupanar do lumpensinato da ilusão.
E, ela, que papel cumpre?
Ela imprime descomunal animação
à falange
das minhas máscaras.
Waly Salomão
In: SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco,2001, p. 107.
na civilização.
Ela prescinde da felicidade
dos bem-postos na vida.
Quanto mais na lida diária
o Tedium Vitae preside
tanto mais
eu e ela nos fundimos extáticos,
crentes da seita dos dervixes girantes.
Eu, com ansiosa solicitude,
agarro qualquer bóia
- destroço seja jóia -
e comando o lupanar do lumpensinato da ilusão.
E, ela, que papel cumpre?
Ela imprime descomunal animação
à falange
das minhas máscaras.
Waly Salomão
In: SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco,2001, p. 107.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
BLEFE
pois esse é o mês bastardo, azinhavre
engole o que há de doce nos metais
silêncio embaça a pele dos diários
lençóis têm cor de áridos lençóis
existe azul, mas é um azul de asma
que a nitidez da tarde faz em cápsula
espelhos só devolvem olheira e pragas
um gesto que de fácil despedaça
catódica essa luminosidade
estranha o sol repele o sol. intacto
o tique que quedou meus dias gagos
a rima fica lívida nos lábios
e dor sem voz passeia o seu contágio
um gato eletrifica. arrisco maio.
Claudia Roquette-Pinto
IN: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Esses poetas. Uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998, p. 118.
engole o que há de doce nos metais
silêncio embaça a pele dos diários
lençóis têm cor de áridos lençóis
existe azul, mas é um azul de asma
que a nitidez da tarde faz em cápsula
espelhos só devolvem olheira e pragas
um gesto que de fácil despedaça
catódica essa luminosidade
estranha o sol repele o sol. intacto
o tique que quedou meus dias gagos
a rima fica lívida nos lábios
e dor sem voz passeia o seu contágio
um gato eletrifica. arrisco maio.
Claudia Roquette-Pinto
IN: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Esses poetas. Uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998, p. 118.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
Um poema de Paul Celan
À noite, quando o pêndulo do amor oscila
entre sempre e nunca,
tua palavra toca as luas do coração
e teu tempestuoso olho
azul alça o céu à terra.
De longe, do negrissonhado
bosque advém-nos o sopro,
e o perdido circula, grande como os esquemas do futuro.
O que agora sobe e desce
vale para o íntimo soterrado:
cego como o olhar que trocamos,
beija o tempo na boca.
CELAN, Paul. Poemas. Tradução de Flávio Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977, p.25.
entre sempre e nunca,
tua palavra toca as luas do coração
e teu tempestuoso olho
azul alça o céu à terra.
De longe, do negrissonhado
bosque advém-nos o sopro,
e o perdido circula, grande como os esquemas do futuro.
O que agora sobe e desce
vale para o íntimo soterrado:
cego como o olhar que trocamos,
beija o tempo na boca.
CELAN, Paul. Poemas. Tradução de Flávio Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977, p.25.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
ESCOLHO
Parado
Na plataforma superior
Entre as pernas
no chão
as compras num plástico
Longe do verso perto da prosa
Sem ânimo algum
para as sortidas sempre -
enquanto duram -
venturosas da paixão
Longe tão longe
do humor da ironia
das polimorfas vozes
sibilinas
transtornadas no ouvido
da língua
Ali onde o chão é chão
as pernas, pernas
a coisa, coisa
e a palavras, nenhuma
Onde apenas se refrata
a ideia
de um pensamento exaurido
de movimento
Entre dois trajetos
dois portos
(duas lagunas)
duas doenças
Sublimes virtudes do acaso
por que não me tomais
por dentro
e me protegeis do frio de fora
da incessante, intolerável, fuga do enredo?
da escolha?
Francisco Alvim
ALVIM, Francisco. Elefante. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.133-134.
Na plataforma superior
Entre as pernas
no chão
as compras num plástico
Longe do verso perto da prosa
Sem ânimo algum
para as sortidas sempre -
enquanto duram -
venturosas da paixão
Longe tão longe
do humor da ironia
das polimorfas vozes
sibilinas
transtornadas no ouvido
da língua
Ali onde o chão é chão
as pernas, pernas
a coisa, coisa
e a palavras, nenhuma
Onde apenas se refrata
a ideia
de um pensamento exaurido
de movimento
Entre dois trajetos
dois portos
(duas lagunas)
duas doenças
Sublimes virtudes do acaso
por que não me tomais
por dentro
e me protegeis do frio de fora
da incessante, intolerável, fuga do enredo?
da escolha?
Francisco Alvim
ALVIM, Francisco. Elefante. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.133-134.
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