quinta-feira, 22 de abril de 2010

poema

faz três semanas
espero
depois da novela
sem falta
um telefonema
de algum ponto
perdido
do país


ana cristina cesar

CESAR, Ana Cristina. Novas seletas. Organização, apresentação e notas de Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p.53.

domingo, 18 de abril de 2010

O poeta e seus babilaques

Mascarado avanço

Ela desinfla o mal-estar
na civilização.
Ela prescinde da felicidade
dos bem-postos na vida.
Quanto mais na lida diária
o Tedium Vitae preside
tanto mais
eu e ela nos fundimos extáticos,
crentes da seita dos dervixes girantes.
Eu, com ansiosa solicitude,
agarro qualquer bóia
- destroço seja jóia -
e comando o lupanar do lumpensinato da ilusão.
E, ela, que papel cumpre?
Ela imprime descomunal animação
à falange
das minhas máscaras.

Waly Salomão

In: SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco,2001, p. 107.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

BLEFE

pois esse é o mês bastardo, azinhavre
engole o que há de doce nos metais
silêncio embaça a pele dos diários
lençóis têm cor de áridos lençóis

existe azul, mas é um azul de asma
que a nitidez da tarde faz em cápsula
espelhos só devolvem olheira e pragas
um gesto que de fácil despedaça

catódica essa luminosidade
estranha o sol repele o sol. intacto
o tique que quedou meus dias gagos

a rima fica lívida nos lábios
e dor sem voz passeia o seu contágio
um gato eletrifica. arrisco maio.

Claudia Roquette-Pinto

IN: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Esses poetas. Uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998, p. 118.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

domingo, 11 de abril de 2010

Um poema de Paul Celan

À noite, quando o pêndulo do amor oscila
entre sempre e nunca,
tua palavra toca as luas do coração
e teu tempestuoso olho
azul alça o céu à terra.

De longe, do negrissonhado
bosque advém-nos o sopro,
e o perdido circula, grande como os esquemas do futuro.

O que agora sobe e desce
vale para o íntimo soterrado:
cego como o olhar que trocamos,
beija o tempo na boca.


CELAN, Paul. Poemas. Tradução de Flávio Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977, p.25.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

ESCOLHO

Parado

Na plataforma superior

Entre as pernas
no chão
as compras num plástico

Longe do verso perto da prosa
Sem ânimo algum
para as sortidas sempre -
enquanto duram -
venturosas da paixão

Longe tão longe
do humor da ironia
das polimorfas vozes
sibilinas
transtornadas no ouvido
da língua

Ali onde o chão é chão
as pernas, pernas
a coisa, coisa
e a palavras, nenhuma
Onde apenas se refrata
a ideia
de um pensamento exaurido
de movimento

Entre dois trajetos
dois portos
(duas lagunas)
duas doenças

Sublimes virtudes do acaso
por que não me tomais
por dentro
e me protegeis do frio de fora
da incessante, intolerável, fuga do enredo?
da escolha?

Francisco Alvim

ALVIM, Francisco. Elefante. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.133-134.